Décadas
Com o título original
de Ásia de João de Barros dos fectos que os portugueses fizeram no descobrimento
e conquista dos mares e terras do Oriente, esta obra em quatro volumes
é mais conhecida como as Décadas.
Trata-se de uma riquíssima contribuição para a língua portuguesa, mas
também para a história, ainda que alguns historiadores dos nossos tempos
se recusem a considerá-la como tal. Tem sido frequentemente acusada
de ser parcial nos elogios que tece, nas personalidades que condena,
nos acontecimentos que salienta e na trivialidade de alguns dos seus
conteúdos. O próprio João de Barros escreve, no prólogo da quarta década,
acerca deste assunto. Barros conta que a sua intenção era a de criar
uma obra monumental, um documento literário imaculado e solene, onde
os ódios, invejas e cobiças jamais teriam lugar ao lado dos grandes
feitos. Mais explica que temia que a sua obra fosse uma má influência
se comportasse tais acções indignas. Devemos ter igualmente em conta
que Barros escreveu a sua obra para que fosse lida e apreciada pelos
seus contemporâneos. O impacto destes quatro volumes foi maior num contexto
internacional do que propriamente no nacional. Embora alguns dos seus
amigos, também humanistas, como por exemplo Damião de Góis, tivessem
elogiado a sua obra, sabemos que não foi tão bem recebida como deveria
ter sido, em parte pela pressão exercida pelo seu rival Fernão Lopes
de Castanheda, que publicou a sua história nestes mesmos tempos. Por
outro lado, sabe-se que o Papa Pio IV tinha colocado o busto de Barros
no Vaticano, ou que o humanista Filippo Sassetti mostrou grande agrado
por esta obra. Os livros em si, como já foi referido, são extensos e
contam uma infindável série de factos sobre os feitos dos portugueses
no oriente. No entanto, podemos destacar alguns dos mais importantes,
de todos os livros, visto que não é possível comentar todos os aspectos
individualmente. Como é óbvio, o livro faz menção às viagens dos navegadores
Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral. A maioria das descrições dos dois
primeiros volumes descreve as mais importantes batalhas marítimas e
as conquistas, assim como as rotas comerciais. São mencionados os nomes
de D. Francisco de Almeida e de Fernão Peres de Andrade pelas importantes
vitórias que almejaram e que concederam ao país o domínio do oceano
Índico na sua totalidade. O terceiro volume será o de maior interesse
para os estudiosos de hoje, na medida em que deixa de parte as conquistas
e as batalhas para dar lugar a descrições magníficas do continente Asiático.
Parece-me importante relevar o fascínio de Barros pelo império chinês,
as suas leis e administração, construções (é mencionada a muralha da
China) assim como pelas suas crenças religiosas. É surpreendente que
este autor, sendo um homem do renascimento, fosse tão tolerante com
a diferença de religião – tolerância que não para com os muçulmanos
ou hindus. João de Barros supera-se ao confessar reconhecer a superioridade
da cultura e ciência chinesa à da Grécia e Roma antiga, facto que é
absolutamente incrível. Existe um problema associado à quarta publicação,
mais propriamente com a sua autoria. A obra póstuma terá sido publicada
em Madrid, por um autor que teve acesso aos seus escritos dispersos
e confusos e que os completou.