Para que se compreenda
melhor o seu percurso de vida passo a apresentar uma cronologia onde
se encontram duas linhas distintas, uma marcada pelos eventos conhecidos
mais importantes da vida de João de Barros e outra que é marcada pelos
eventos de maior impacto a nível nacional e europeu nos anos em que
viveu. Estes dados foram retirados do livro João de Barros, vida
e obra, de António Borges Coelho.
Apesar de não se
saber ao certo, acredita-se que João de Barros terá nascido em Viseu,
filho de Lopo de Barros, o vereador da cidade, que viria a ocupar o
cargo de corregedor dois anos depois da sua nascença. A informação acerca
do seu lado materno é escassa. Socialmente, esta família inseria-se
numa nobreza funcionária, marcada pela mercadoria e pelo dinheiro. Na
sua infância tem o privilégio de residir no Paço, fazendo companhia
e prestando ao infante D. João (mais tarde rei D. João III) o serviço
de moço de guarda-roupa. Foi no Paço que viu com os seus olhos alguns
dos heróis da época, como o Vasco da Gama ou Duarte Pacheco Pereira,
e que ouviu as primeiras críticas ao clero. Teve como mestres o Bispo
de Viseu, D. Diogo de Ortiz de Vilhegas, que lhe terá ensinado a língua
de Virgílio (o latim) e as Sagradas Escrituras. Após a morte do Bispo,
é Luís Teixeira quem lhe lecciona a língua grega. Todos os seus ensinamentos
e todas as suas experiências de infância vão marcar a sua obra literária.
João de Barros inicia-se neste campo com uma obra de nome Crónica do
Imperador Clarimundo, da qual lê alguns capítulos ao rei D. Manuel,
que, satisfeito, lhe promete o trabalho de ser o historiador dos feitos
portugueses nos descobrimentos (esta e outras obras serão analisadas
em maior detalhe mais à frente.) Um ano a seguir, o país conhece um
novo rei, D. João III. É no ano de 1525 que João de Barros começa a
exercer funções de tesoureiro na Casa da Mina em Lisboa, e mais tarde
na Casa da Índia, assim como tesoureiro-mor de Ceuta. É também por esta
altura que surge o seu casamento com D. Maria de Almeida, de 20 anos
de idade, filha de Diogo de Almeida, escudeiro da Rainha D. Leonor.
Poucos anos após
o casamento com D. Maria de Almeida, abandona as suas funções e refugia-se
na Quinta da Ribeira do Alitém (uma propriedade que fazia parte do dote
da sua esposa) onde explora as terras, com relativo sucesso, e investe
nas casas de residência. É em 1532 que a sua obra mais emblemática,
a Ropica Pnefma, é impressa em Lisboa pela mão de Germão Galharde. No
verão de 1533 lê ao rei, em Évora, o Panegírico de D. João III. Seguem-se
agora anos difíceis para a vida de João de Barros que, depois de se
tornar donatário de duas capitanias na costa do Maranhão, vai organizar
uma armada para se estabelecer no litoral e, influenciado pelos feitos
de Cortez e Pizarro, tentar por mão em algum do outro americano. A embarcação
é constituída por 9 navios, 900 homens, 113 dos quais a cavalo. Em 1538
esta expedição termina em absoluto fracasso, espalhando-se o resto da
armada pelas Antilhas. De volta ao seu país, assiste à publicação de
mais um escrito seu, a Cartinha, uma obra de gramática de grande valor,
como mais tarde se irá verificar quando for analisada em maior detalhe.
Luís Rodrigues vai publicar ainda outros escritos nesta altura, nomeadamente
a Gramática da Língua Portuguesa, com o Diálogo em Louvor da nossa Linguagem,
Diálogo da Viciosa Vergonha e Diálogo de João de Barros com dous filhos
seus sobre preceptos moraes. O ano de 1540 é apontado como ano provável
da escrita de uma outra obra sua de grande relevância, o Diálogo Evangélico
sobre os artigos da fé contra o Talmud dos Judeus, obra que dedica ao
Cardeal D. Henrique (que como se vê na cronologia foi nomeado inquisidor
geral em 1538). D. Henrique não aprovou a sua publicação. Começa por
esta altura uma época de más finanças para João de Barros, que hipoteca
todos os seus bens como forma de garantia de pagamento de um empréstimo.
No mesmo ano em
que se inicia o Concílio de Trento, João de Barros fixa no Paço da Ribeira,
debaixo dos aposentos de D. Catarina, o seu novo local de trabalho.
Um ano a seguir, segundo se pensa, escreve o Panegírico da Infanta D.
Maria, um escrito onde são elogiadas as suas qualidades e onde o autor
faz menção a exemplos de mulheres, que à semelhança da Infanta, detinham
grandes conhecimentos e talento. O ano de 1552 é o ano em que Germão
Galharde publica em Lisboa o primeiro volume da Ásia de João de Barros
dos fectos que os portugueses fizeram no descobrimento e conquista dos
mares e terras do Oriente. Tal como lhe fora prometido por D. Manuel,
João de Barros é incumbido de elaborar o registo das façanhas dos portugueses
em terras do oriente. A obra, de valor imenso, vai ser aprofundada mais
à frente. O segundo volume, como demonstra a cronologia, é publicado
um ano a seguir e o terceiro mais tarde em 1563. Existe um quarto volume
que não se inclui na cronologia, de autoria questionável. O seu filho
morgado, António de Barros, falece em 1556. Insatisfeito com os resultados
da primeira tentativa, João de Barros organiza uma segunda expedição
ao Maranhão neste mesmo ano, comandada pelos seus filhos Jerónimo e
João, novamente sem sucesso. Pouco tempo depois sofre um acidente cardiovascular
que o leva a reformar-se das funções de feitor da Casa da Índia e a
regressar para a Quinta da Ribeira de Alitém. As dificuldades financeiras
são cada vez mais acentuadas. Em 1570, dois anos após ter tentado, juntamente
com Fernão Mendes Pinto, completar a perdida Geografia com informações
sobre o Japão, João de Barros acaba por falecer na Quinta da Ribeira
de Alitém. É enterrado na capela de Santo António. Posteriormente os
seus ossos são transladados para a igreja de Alcobaça. Para além de
um extenso legado cultural, deixou também as suas dívidas que vão “atormentar”
as seguintes gerações da sua família.
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